Filho do Homem

Capítulo Um

Belém

Na manhã em que o filho dele nasceu, mandaram José buscar água.

As contrações vinham mais depressa agora.

Maria agarrava a roupa de cama com as duas mãos. Tinham tirado os animais da gruta embaixo da hospedaria e pendurado cortinas para os viajantes. À noite aquilo parecera bastar. Agora cada passo do outro lado da cortina a fazia erguer os olhos.

Duas mulheres da caravana estavam ajoelhadas ao lado dela. Uma segurava sua mão. A outra olhou para José.

“Água. Panos limpos. O que ela tiver trazido.”

Ele tinha construído a casa onde eles deveriam estar. Tinha começado um berço. As duas coisas estavam em Nazaré, a três dias dali.

Ele foi buscar a água.

“Respira”, ele disse quando voltou.

Maria segurou o pulso dele.

Outra onda a curvou para a frente. Ele ficou parado e deixou que ela machucasse a mão dele.

Ao meio-dia a criança veio.

Uma das mulheres o ergueu. Por um instante José viu apenas o corpinho molhado nas mãos dela. Então o menino puxou o ar e chorou.

A mulher o enrolou no pano que Maria tinha trazido e o deitou junto à mãe.

Maria estava de olhos fechados. Suas mãos encontraram o filho antes que ela os abrisse.

José se sentou sobre os calcanhares. As mãos dele tremiam. Ficou olhando a mulher juntar os panos ensanguentados, grato por ter algo comum para olhar.

“Você tem um filho”, ela disse a ele.

Ele assentiu. Já tinha entendido aquelas palavras antes. Isto ele não tinha entendido.

Maria afastou o pano do rosto da criança. Os olhos dele vagaram até o rosto dela e se fecharam de novo. Ela se inclinou sobre ele.

José estendeu a mão para os panos. Através do tecido áspero sentia as costelas. A pequenez delas. O jeito como se mexiam.

Ele tinha feito coisas a vida inteira. Nada do que ele fez tinha precisado dele assim.

Na tarde seguinte eles subiram para o andar de cima.

Um viajante que José tinha conhecido na estrada arranjou a troca de quartos. José levou as trouxas escada acima. Maria levou a criança. Nenhum dos dois reclamou de sair da gruta.

No oitavo dia deram a ele o nome de Yeshua.

Quando os estrangeiros chegaram, ele tinha quase três semanas.

Ardnon já estava com medo de mais uma porta.

Semanas em Jerusalém. Sacerdotes que o mandavam a outros sacerdotes. Homens que ouviam a palavra criança e queriam dinheiro antes de ouvir mais uma. Ele e os companheiros estavam prontos para voltar para Ur quando um sacerdote chamado Zacarias os deteve.

“Acho que eu sei quem vocês estão procurando.”

Agora Ardnon estava na frente de uma hospedaria em Belém, com Kaspar e Balthazar atrás dele.

“É aqui?”, Kaspar disse.

“Foi para cá que ele nos mandou.”

“E se ele estiver errado?”

Ardnon olhou para a porta. Em casa, um mestre tinha falado de um sonho: a luz da vida, aparecendo entre os judeus como uma criança. Tinham vindo de muito longe por causa do sonho de outro homem.

Seu polegar encontrou o cordão de couro no pulso. O mestre que tinha dado o cordão a ele estava morto. O cordão tinha durado mais que ele.

Ardnon bateu.

José abriu a porta com uma enxó na mão. Estava consertando um banquinho para o dono da hospedaria. Manteve a ferramenta junto à perna.

O estrangeiro reparou.

“Meu nome é Ardnon. Zacarias nos mandou.”

Atrás de José, Maria ergueu a cabeça.

“O que o Zacarias quer?”, José disse.

“Ele disse que o senhor talvez deixasse a gente ver o seu filho.”

José não se mexeu.

“Trouxemos presentes.”

“Pra quê?”

“Para ele.” Ardnon olhou para além de José, para a pequena trouxa nos braços de Maria. “A gente acredita que ele vai levar luz pra muito mais gente do que o povo dele.”

“E se ele for só um bebê?”

Ardnon voltou a olhar para o carpinteiro.

“Então um bebê vai ganhar uns presentes.”

Maria o observava.

“Deixa eles entrarem”, ela disse.

José deu um passo para o lado.

Ardnon se ajoelhou ao lado dela.

“Posso?”

Maria afastou a ponta do pano.

A criança dormia. A boca se mexeu uma vez, procurando leite. Ardnon esperou por alguma coisa que pudesse levar para casa e pôr em palavras.

Maria ajeitou o menino junto a si. Yeshua se mexeu, abriu os olhos e agarrou um dos dedos dela. Ela sorriu para ele.

O polegar de Ardnon apertou o cordão.

“Tragam os presentes”, ele disse.

Kaspar pôs os pacotes ao lado de Maria. Ouro. Incenso. Mirra. Ela agradeceu e ajeitou o menino para conseguir pegar.

José a viu aceitá-los. Presente nenhum dizia a ele quem eram aqueles homens. Mas eles tinham atravessado uma grande distância, e agora estavam de mãos vazias.

Ele largou a enxó.

Herodes soube da visita depois.

Mandou chamar os três homens a Jerusalém. Queria saber do novo rei. Ardnon tentou explicar que não tinham vindo à procura de um trono rival.

Herodes escutou. Depois deu uma bolsa a eles e mandou que achassem a criança de novo, para ele também poder ir adorá-la.

Do lado de fora do palácio, Kaspar olhou para Ardnon.

“E então?”

Ardnon guardou a bolsa.

“A gente vai pra casa.”

Eles não voltaram a Belém.

José encontrou trabalho. Encontraram quartos com parentes. A criança cresceu.

Então veio a notícia de que os homens de Herodes estavam à procura deles.

José parou de aceitar trabalho que trouxesse estranhos à casa. Maria aprendeu qual janela dava pra ver da estrada. Os presentes e as poucas economias foram acabando juntos.

O inverno passou. Depois a primavera. No outono seguinte o menino já conseguia se pôr de pé apoiado num banquinho. José guardou as ferramentas afiadas mais no alto.

O mensageiro veio depois do anoitecer, em outubro.

Ele sabia o nome de Zacarias. Sabia onde José tinha trabalhado. Não quis passar da porta.

“Uma ordem foi preparada”, disse ele. “Todos os meninos de Belém com menos de dois anos.”

José olhou para o banquinho. Yeshua segurava a borda com as duas mãos.

“Quando?”

“Amanhã.”

O mensageiro pôs dinheiro na mão de José. Zacarias tinha mandado para a viagem. Egito. Alexandria. Tinha parentes lá que podiam receber a família.

Maria já tinha erguido o menino.

Partiram naquela noite.

Sem companheiros. Sem lamparinas. José conduziu o jumento para fora de Belém enquanto Maria mantinha uma das mãos nas costas do filho e a outra sobre a fivela que chacoalhava contra a sela.

Yeshua tinha pouco mais de um ano. Queria descer. Puxava o xale dela, bravo porque ela segurava ele com tanta força.

Ela encostou o rosto nos cabelos dele.

“Agora não”, ela sussurrou.

José levava a enxó na mão livre.

Ouviram cascos antes do amanhecer.

José puxou o jumento para fora da trilha, para um amontoado de pedras. Maria ficou imóvel. O menino estendeu a mão para o rosto dela.

Os cascos passaram. Sumiram.

Esperaram mais do que precisava.

“Belém”, disse José por fim. Os cavaleiros tinham ido na direção de Belém.

Maria pensou nas mães que tinham emprestado panos pra ela. Nas crianças que ela tinha visto brincando na porta dos parentes. As mães deviam estar pondo os filhos pra dormir, ou pegando no colo quando eles choravam.

José tocou o joelho dela.

Seguiram para o sul.

Na primeira parada José comeu figos secos e vigiou a estrada. Maria amamentou o menino.

“O anjo disse que ele ia ser grande”, ela falou.

José olhou para a estrada.

“Disso ele não falou nada.”

Os dedos do filho se fecharam na borda do xale. Ela os soltou com delicadeza para poder cobrir o rosto dele contra o vento.

José terminou o figo. Sua mão encontrou o pano nas costas do menino e ficou ali.

“A gente precisa ir”, ele disse.

Os dias ficaram quentes. As colinas deram lugar a terras mais planas. Compravam pão onde podiam e pediam água antes de pedir notícias.

Quando chegaram ao Egito, Maria já tinha parado de olhar para trás a cada ruído.

Uma noite ela sentou encostada numa palmeira enquanto José dormia. Uma fogueira ardia do outro lado do acampamento dos viajantes. O menino tinha adormecido contra o peito dela.

Um estranho riu de alguma coisa que outro estranho disse numa língua que ela ainda não conhecia.

Ela encostou o rosto no alto da cabeça do filho. Sob sua mão as costelas dele subiam e desciam.

Ela não pôs o menino no chão.