Filho do Homem

Capítulo Três

O morro

O morro em cima de Nazaré não tinha nome. Todo mundo chamava só de morro.

Lá de cima dava para ver tudo. O Carmelo correndo para o noroeste até o mar. O Hermom com o pico branco até no verão. O vale do Jordão a leste, e depois dele os morros de pedra de Moabe. Ao sul, a planície de Esdrelom se estendendo até Samaria, larga, plana e velha.

José levava o filho lá em cima todo sábado, quando a cidade ficava quieta e o trabalho parava. Ele contava histórias no caminho. Elias no Carmelo. Gideão pondo os midianitas para correr no vale lá embaixo. O menino fazia perguntas sobre cada uma.

Na curva onde a trilha saía da aldeia, a mão de José pousou no murinho de pedra. As mesmas pedras que ele vinha querendo arrumar desde as chuvas.

“Por que tem neve no Hermom e aqui não?”

“Porque lá é mais alto. Mais frio.”

“Por que é mais frio se é mais perto do sol?”

Para essa José não tinha resposta. Ficou ali no morro com os dedos enganchados no cinto, encarando a montanha como se ela fosse se explicar sozinha.

O menino olhava o rosto do pai. Uma pergunta grande demais para o homem que construía tudo.

José pôs a mão no tronco de uma oliveira velha que crescia no meio da pedra. “A madeira já estava aqui antes da gente”, ele disse. “Vai continuar aqui depois.”

Na descida, José ensinou uma canção a ele. Disse que era canção de rei. Disse que um rei tinha atravessado um vale cantando ela baixinho e tinha saído do outro lado.

O Senhor é o meu pastor. Nada me faltará.

O menino aprendeu os versos andando. Levou a canção para dentro da aldeia.

Nazaré não era uma cidade sossegada.

Séforis estava sendo reconstruída a seis quilômetros dali, uma vitrine romana subindo dos escombros, e Nazaré abastecia a obra. Pedreiros, carpinteiros e trabalhadores passavam o tempo todo, junto com as caravanas que usavam a encruzilhada lá embaixo. Gregos. Judeus. Viajantes de terras de que Yeshua só tinha ouvido falar.

A oficina de José, perto da fonte da aldeia, ficava a uma distância de onde dava para ouvir o pátio das caravanas. Todo tipo de estranho ia lá dar água para um animal. Yeshua escutava todos eles. Aos dez anos os mercadores das caravanas já sabiam o nome dele e guardavam as melhores histórias para quando ele aparecesse.

“Seu filho faz mais pergunta que cobrador de imposto romano”, um mercador disse a José. “Pelo menos as dele são interessantes.”

Num verão, antes de Yeshua fazer seis anos, um primo desceu da região das montanhas com os pais. O nome dele era João. Era uns meses mais velho. Magro. Quieto. Ficou olhando Yeshua na fonte e não chegou perto dele por dois dias.

No terceiro dia ele se sentou na beira da cisterna e não falou nada por uma hora. Yeshua se sentou do lado dele.

Depois de um tempo o primo cantarolou. Sem melodia. Um som baixo e firme, quase no limite do que dava para ouvir. O tipo de som que um homem faz quando esquece que está fazendo. Continuou.

Yeshua escutou o cantarolar. Depois de um tempo percebeu que estava respirando no ritmo dele.

Ele não disse nada ao menino do lado. Não sabia o que teria dito.

O primo parou de cantarolar. Bebeu água na concha da mão. Os dois ficaram ali sentados.

Quando a visita acabou o primo voltou para as montanhas com os pais. Maria ficou olhando a estrada até a poeira baixar.

A sala de aula era um cômodo nos fundos da sinagoga. Chão de pedra. Sem janelas. Os meninos sentavam em semicírculo enquanto o chazan recitava dos rolos e eles repetiam as palavras.

Yeshua já dominava o aramaico e o grego quando chegou, o que dava a ele uma vantagem no hebraico. Era dedicado. Rápido. O chazan acompanhava o progresso dele e não comentava nada com os outros pais, porque tinha aprendido que elogiar a inteligência de um menino para a mãe de outro era um bom jeito de perder aluno.

Mas uma manhã, no segundo ano, a sala ficou em silêncio.

O chazan estava ensinando o relato da criação. Seis dias de trabalho, depois descanso. O mandamento do sábado. Pediu aos meninos que recitassem. Eles recitaram. Ele seguiu em frente.

A mão de Yeshua subiu.

“Se o Senhor mandou a gente não trabalhar no sábado, quem mantém o mundo vivo no sétimo dia. Isso não é trabalho.”

Onze meninos se viraram para encarar ele. O chazan olhou para a porta.

“Essa é uma pergunta para homens mais velhos”, ele disse por fim.

“Então por que a gente está estudando isso.”

Os dedos do chazan apertaram o rolo. Ele não tinha nenhuma resposta que aguentasse a pergunta seguinte.

Retomou a aula. Yeshua ficou sentado quieto. Os olhos dele continuaram no professor depois que os outros meninos tinham voltado a decorar.

Depois da aula, o chazan ficou sentado sozinho na sala vazia. Ficou ali mais tempo do que a aula tinha durado.

Uma mãe tirou o filho da escola depois da pergunta do sábado. “Por que você volta pra casa falando desse jeito”, ela disse na praça, alto o bastante para Maria ouvir. O menino ficou olhando para as sandálias. Outros pais concordaram com a cabeça.

Os filhos deles chegavam em casa repetindo coisas que Yeshua tinha dito, e os pais punham a culpa nele.

E tinha os meninos que odiavam ele por isso.

Yeshua não brigava. Força ele tinha. Só não brigava. Os meninos mais velhos empurravam e ele ficava parado. Zombavam dele e ele ficava olhando até as palavras deles acabarem. O silêncio deixava eles mais furiosos.

O amigo dele, Jacó, resolveu o problema.

Jacó era filho do pedreiro, um ano mais velho, forte feito um boi novo. Tinha decidido cedo que Yeshua valia a pena proteger, e cuidava para que ninguém encostasse nele. Os meninos mais velhos aprenderam rápido que mexer com Yeshua era se ver com Jacó.

“Por que você não se defende”, Jacó perguntou uma vez, depois de espantar um grupo de três. “Você dava conta de qualquer um deles.”

“Não sei”, Yeshua disse. “Só não parece certo.”

Ele aprendeu harpa com um músico, pagando as aulas em leite. O músico era um grego de uma das cidades do litoral e tinha aprendido música com homens que seguiam Pitágoras. Ele disse ao menino que uma nota era um número. Quantas vezes uma corda tremia contra o ar no tempo de uma respiração. Tremor lento fazia nota grave. Tremor rápido fazia nota aguda. Tudo que cantava tinha um ritmo.

O menino ficou revirando a ideia na boca feito uma palavra nova. Quando o músico foi embora, ele encostou a ideia no calor sem nome que sentia no peito. E guardou.

Os dedos dele achavam as cordas pelo tato.

Quando ele tocava, a coisa atrás das costelas ficava quieta. Não sumia. Ficava quieta.

Algumas noites a mãe encontrava ele no telhado, tocando no escuro. Ela ficava parada no pé da escada, escutando, e não subia.

Ele desenhava antes de tocar. Quando tinha nove anos, foi o desenho que levou os anciãos até a casa dele.

Ele sempre tinha rabiscado. Paisagens. Bichos. Rostos. Desenhava em pedra, em resto de madeira, na terra batida atrás da oficina quando ninguém estava olhando. A mão dele entendia proporção. Uma linha de carvão no calcário e ali estava um cipreste. Três traços e ali estava um pardal.

Ele conhecia a lei. Não farás para ti imagem de escultura. Mas um desenho não era imagem de escultura. A flor e o desenho da flor apontavam os dois para o mesmo criador. Como é que um podia ser santo e o outro proibido.

José sabia. Via o menino desenhar desde que ele conseguia segurar um carvão, e nunca falou nada. José ligava para linha reta na madeira e encaixe honesto. A lei era a lei, mas a mão do menino era boa, e trabalho bom era uma coisa que José não tinha coragem de parar.

Maria sabia. Tinha achado os desenhos escondidos embaixo da esteira dele. Deixou lá.

Foi o retrato que acabou com aquilo.

Uma tarde parada na escola. O chazan lia de Números, um trecho que Yeshua tinha decorado semanas antes. A cabeça dele foi longe. A mão achou um pedaço de carvão no chão.

Ele desenhou na pedra. Não uma paisagem. Não um bicho. O rosto do chazan.

Primeiro o contorno do rosto. Depois os olhos fundos, a testa marcada pelo tempo, a barba mais rala do lado esquerdo, onde o homem esfregava quando estava pensando. Ele desenhou rápido. O carvão andava como se já soubesse para onde ir.

O menino do lado percebeu primeiro. Depois o menino do outro lado do círculo. Depois uma onda de silêncio, conforme um por um eles paravam de recitar e se viravam para olhar o chão.

A voz do chazan foi sumindo. Ele seguiu os olhos deles para baixo.

O próprio rosto olhava para ele de volta da pedra. A expressão era a que ele fazia quando achava que ninguém estava olhando.

Ninguém falou. O chazan olhou o retrato, depois o menino, depois o retrato de novo.

“Quem mandou você desenhar isso.”

“Ninguém mandou.”

“Então por quê.”

“Porque o seu rosto é interessante. O lado esquerdo é diferente do direito. Eu queria entender por quê.”

O chazan cobriu o desenho com a sandália. Devagar. Como quem põe alguma coisa para dormir.

Naquela noite os anciãos foram à oficina de José. Vozes duras. O menino tinha violado o segundo mandamento na casa de Deus. Alguma coisa tinha que ser feita.

José escutou. Maria ficou na porta de braços cruzados. Os dedos dela estavam brancos de apertar os cotovelos.

Yeshua ouvia tudo lá de fora. As vozes subindo e descendo pela janela aberta. Depois de um tempo, ele entrou.

“Eu queria falar.”

Os anciãos se viraram. Um deles ia dizer alguma coisa. Depois olhou para o menino e deixou para lá.

“Eu fiz um desenho. Fiz porque o rosto era bonito, e a minha mão sabia achar a forma dele. Eu não acho que fiz nada errado.” Ele parou. Olhou para José. “Mas eu vejo que isso incomodou vocês. E eu não quero trazer problema pro meu pai. Eu faço o que vocês decidirem.”

Um dos anciãos se sentou.

José decidiu que Yeshua tinha que seguir a interpretação dos rabinos. Chega de figuras. Chega de desenhos.

Yeshua fez que sim. Não disse nada. Foi para o quarto.

Deitou na esteira e encostou as duas palmas na parede. Pedra fria. Sentia o grão dela na ponta dos dedos. A parede era de calcário, cortado do morro atrás da casa, e se ele fechasse os olhos conseguia sentir a forma do morro dentro da pedra. A curva. O peso.

Do lado da esteira estava a caixa de cedro. José tinha deixado as escrituras gregas aos cuidados dele quando ele tinha seis anos. O pai costumava apontar uma palavra e esperar enquanto Yeshua ia decifrando. Tinha marcas que ele ainda achava pelo tato do rolo.

Ele olhou para ela.

Virou o rosto para a parede.

Não fez mais figura nenhuma enquanto morou na casa do pai.

No ano em que Yeshua fez onze anos, José levou ele a Citópolis.

Uma viagem de negócios. Material para uma obra. Mas José tinha outra intenção. Fazia anos que o menino ficava olhando as cidades gregas lá do morro, perguntando o que acontecia dentro daqueles muros, e José achou melhor mostrar do que deixar a imaginação preencher as lacunas.

Citópolis era limpa e organizada. Bonita de um jeito que Nazaré não tinha como pagar. Prédios de mármore em quadras perfeitas. Ruas onde dava para comer no chão. Um anfiteatro tão grande que o lado de lá sumia na própria sombra.

Os jogos estavam acontecendo quando eles chegaram. Competições de atletismo. Rapazes de toda a Decápolis competindo pela honra.

Yeshua ficou na grade do anfiteatro e esqueceu de respirar.

Os corredores se moviam. Nenhum movimento sobrando. Corpos treinados do jeito que o pai dele trabalhava a madeira. Forçados além da resistência. Moldados pela repetição até o excesso queimar e só sobrar o essencial.

“Olha só eles”, ele disse. “O jeito que eles forçam o corpo a fazer mais do que parece possível.”

José olhou para o filho. Pôs a palma da mão na nuca do menino e deixou ali.

Naquela noite, no quarto da hospedaria, Yeshua deu uma ideia.

“E se a gente construísse alguma coisa assim em Nazaré. Não os templos pagãos. Só o treino de atletismo. Os meninos da aldeia não têm nada pra fazer além de arrumar confusão. Se eles tivessem um lugar pra correr e competir e aprender o que o corpo deles consegue fazer.”

“Meu filho.”

O tom fez ele travar na hora.

O rosto de José tinha mudado. O homem que explicava tudo. Que respondia toda pergunta. Esse homem tinha sumido.

“Nunca mais, enquanto você viver, me deixe ouvir você dar voz a um pensamento tão mau.”

Yeshua ficou olhando, a boca ainda aberta em volta da palavra que ia dizer. Fechou a boca.

“Está bem, meu pai. Assim será.”

Nunca mais falou de atletismo grego.

Naquela noite José ficou deitado na esteira da hospedaria, de costas para o filho que dormia. Os olhos estavam abertos. Ele não dormiu.

Tinha fechado uma porta naquela noite. Tinha ouvido a tranca cair. Já tinha feito mil portas na vida e sabia quais dava para abrir de novo.

Ele se virou na esteira. Não dormiu.

Antes do dia clarear, Yeshua saiu escondido da hospedaria.

Voltou ao anfiteatro. A arquibancada estava vazia. Um único corredor estava na pista na meia-luz, a poeira prateada debaixo das sandálias. Mais velho que os meninos da competição. Vinte, vinte e cinco anos, talvez. Estava correndo sozinho, para ele mesmo.

Yeshua olhava a passada. A posição dos ombros. O jeito como a respiração vinha em batidas contadas. O homem passou pela ponta da arquibancada e não viu ele. Deu a volta de novo. Não viu ele. Deu a volta de novo.

Um menino em quem ele não pensava fazia anos subiu de dentro dele. Demas. Uma criança grega de cabelo escuro numa cisterna, a mão fechada em volta de um burrinho de madeira. Até agora ele não sabia que estava esperando para pensar nele de novo.

Ficou olhando até o céu clarear. Depois voltou andando para a hospedaria antes de o pai acordar.

Não contou para José.

Decorou a passada.

Naquele verão, antes de Yeshua fazer onze anos, Maria adoeceu depois do nascimento de Judas.

Junho tinha sido quente. O parto deixou ela fraca, e a força não voltou.

Por semanas ela não conseguiu sair da cama. O rosto tinha ficado da cor de barro velho e a voz, quando saía, vinha de muito longe. As crianças menores ficavam na porta do quarto olhando para ela como se fosse alguém que elas conheciam antigamente.

Yeshua não ficava na porta.

Ele se sentou no chão do lado da cama dela na terceira semana, quando ela estava no pior. As crianças estavam dormindo. A lamparina estava baixa. José estava na oficina com a porta fechada.

Ela estava acordada. Ele sabia pela respiração.

“Mãe.”

Ela não virou a cabeça. Os olhos se mexeram na direção dele debaixo das pálpebras.

Ele pegou a mão dela. A mão que tinha segurado ele no jumento na fuga de Belém. Ainda era pequena. Estava mais fina agora. A pele tinha ficado frouxa nos nós dos dedos.

Ela tentou apertar a mão dele e não conseguiu. Os dedos dela se acomodaram na palma dele.

Ele segurou a mão dela do jeito que ela tinha segurado ele.

Quando a respiração dela ficou mais lenta e ela voltou para dentro da febre, ele ficou onde estava.

Ele ainda não tinha onze anos.

O que enchia os dias dele era pão, roupa para lavar e Judas berrando pela mãe do anoitecer até a meia-noite. Ele dava comida para as crianças maiores antes de o sol nascer. Embalava o recém-nascido entre uma tarefa e outra e vigiava as lentilhas para não queimar. Fazia o que estava na frente dele.

O chazan reparou. “Você parece mais velho”, ele disse uma tarde, vendo Yeshua atravessar a praça com dois jarros de água enquanto a irmã dele, Marta, se apressava para acompanhar.

“Eu estou mais velho. Todo mundo fica mais velho.”

“Não é isso que eu quero dizer.”

“Eu sei o que você quer dizer.”

Sozinho no telhado à noite, ele sentia.

Uma pressão atrás do esterno.

Ele tinha contado para José uma vez. Na oficina, tarde, as outras crianças dormindo. José largou o formão. Perguntou onde no peito. Perguntou se doía. Perguntou desde quando. As mãos dele ficaram espalmadas na bancada, bem paradas, e quando Yeshua terminou, José pegou o formão de volta e disse: “Eu acredito em você.” Não disse no que acreditava.

Ele tinha contado para Maria uma vez. Ela agarrou o pulso dele e as perguntas vieram tão rápido que ele não conseguia responder. Como é que é. Quando começou. Está ficando mais forte. Os dedos dela deixaram marcas brancas na pele dele.

Então ele parou de contar para os outros. Deixou aquilo crescer no escuro.

Vinha mais forte nas horas quietas. A casa dormindo lá embaixo. As estrelas em cima. A harpa atravessada nos joelhos, sem tocar. Só segurando. A madeira quente do colo dele, as cordas pegando a luz das estrelas.

Ele tinha doze anos agora. Quase um homem, pelas contas dos judeus. Em poucos meses ia a Jerusalém para a primeira Páscoa dele, ia ficar de pé no Templo, ser contado entre os filhos do mandamento.

A oficina abria de madrugada.

O anúncio veio no jantar.

“Na primavera que vem”, José disse. “A Páscoa. A gente vai pra Jerusalém.”

A mão de Maria parou em cima do pão. Da última vez que ela tinha levado o menino para o sul, eles estavam fugindo de Belém. Agora ele ia andar do lado dela.

“Ele está quase com treze”, José disse. “A lei manda. Está na hora.”

As crianças menores tagarelavam sobre a viagem, o Templo, a multidão. Yeshua viu os pais trocarem um olhar por cima do barulho. O que quer que tenha passado entre eles durou meio fôlego e nenhum dos dois traduziu.

Ele ia para Jerusalém.

No sábado antes da caravana, ele subiu o morro sozinho.

Todo sábado desde os cinco anos, ele tinha subido do lado de José. Nunca tinha subido sozinho.

Subiu agora.

Na curva onde a trilha saía da aldeia ele parou no murinho de pedra. As mesmas pedras que o pai vivia querendo arrumar. José não tinha arrumado. José também não ia arrumar naquele ano. Yeshua sabia disso. Pôs a mão na pedra de cima. Estava fria debaixo da palma. Ele sentia o lugar onde a mão do pai tinha descansado dez mil vezes.

Ele não disse nada. Ficou onde estava.

Quando desceu do morro a luz tinha ficado cor de âmbar. A fumaça da aldeia estava subindo. Ele passou pelo muro de novo. Não encostou nele.

A caravana se juntou no começo de abril. Mais de cem peregrinos de Nazaré e das aldeias em volta, viajando juntos por segurança. Para o leste, para evitar Samaria, para o sul pelo vale do Jordão, depois subindo para Jerusalém para a festa.

Yeshua ia com as mulheres, puxando o jumento de Maria. Quando José chegava do lado, Yeshua perguntava do caminho e dos lugares por onde passavam. Conforme os dias passavam, as perguntas vinham mais rápido. Ele não parava de olhar o horizonte.

Maria olhava de trás. O menino que ela tinha amamentado, ensinado e apertado contra o peito fugindo num jumento no escuro.

Ele ia na frente. O rosto virado para alguma coisa que ela não conseguia ver.